Thursday, October 27, 2011

Sobre o Humor


The incongruity theory is the reigning theory of humor, since it seems to account for most cases of perceived funniness, which is partly because “incongruity” is something of an umbrella term. Most developments of the incongruity theory only try to list a necessary condition for humor—the perception of an incongruity—and they stop short of offering the sufficient conditions.

In the Rhetoric (III, 2), Aristotle presents the earliest glimmer of an incongruity theory of humor, finding that the best way to get an audience to laugh is to setup an expectation and deliver something “that gives a twist.” After discussing the power of metaphors to produce a surprise in the hearer, Aristotle says that “[t]he effect is produced even by jokes depending upon changes of the letters of a word; this too is a surprise. You find this in verse as well as in prose. The word which comes is not what the hearer imagined.” These remarks sound like a surprise theory of humor, similar to that later offered by René Descartes, but Aristotle continues to explain how the surprise must somehow “fit the facts,” or as we might put it today, the incongruity must be capable of a resolution.
In the Critique of Judgment, Immanuel Kant gives a clearer statement of the role of incongruity in humor: “In everything that is to excite a lively laugh there must be something absurd (in which the understanding, therefore, can find no satisfaction). Laughter is an affection arising from the sudden transformation of a strained expectation into nothing” (I, I, 54).

Arthur Schopenhauer offers a more specific version of the incongruity theory, arguing that humor arising from a failure of a concept to account for an object of thought. When the particular outstrips the general, we are faced with an incongruity. Schopenhauer also emphasizes the element of surprise, saying that “the greater and more unexpected [. . .] this incongruity is, the more violent will be his laughter” (1818, I, Sec. 13).

As statedby Kant and Schopenhauer, the incongruity theory of humor specifies a necessary condition of the object of humor. Focusing on the humorous object, leaves something out of the analysis of humor, since there are many kinds of things that are incongruous which do not produce amusement. A more robust statement of the incongruity theory would need to include the pleasurable response one has to humorous objects. John Morreall attempts to find sufficient conditions for identifying humor by focusing on our response. He defines humorous amusement as taking pleasure in a cognitive shift. The incongruity theory can be stated as a response focused theory, claiming that humor is a certain kind of reaction had to perceived incongruity.

Henri Bergson’s essay “Laughter” (1980) is perhaps the one of the most influential and sophisticated theories of humor. Bergson’s theory of humor is not easily classifiable, since it has elements of superiority and incongruity theories. In a famous phrase, Bergson argues that the source of humor is the “mechanical encrusted upon the living” (p. 84) According to Bergson “the comic does not exist outside of what is strictly human.” He thinks that humor involve an incongruous relationship between human intelligence and habitual or mechanical behaviors. As such, humor serves as a social corrective, helping people recognize behaviors that are inhospitable to human flourishing. A large source of the comic is in recognizing our superiority over the subhuman. Anything that threatens to reduce a person to an object—either animal or mechanical—is prime material for humor. No doubt, Bergson’s theory accounts for much of physical comedy and bodily humor, but he seems to over-estimate the necessity of mechanical encrustation. It is difficult to see how his theory can accommodate most jokes and sources of humor coming from wit.

Three major criticisms of the incongruity theory are that it is too broad to be very meaningful, it is insufficiently explanatory in that it does not distinguish between non-humorous incongruity and basic incongruity, and that revised versions still fail to explain why some things, rather than others, are funny. We have already addressed the third criticism: it confuses the object of humor with the response. What is at issue is the definition of humor, or how to identify humor, not how to create a humor-generating algorithm. The incongruity theorist has a response to this criticism as well, since they can claim that humor is pleasure in incongruity.



Tuesday, October 04, 2011

As 3 formas de nunca perder uma guerra desde as Cruzadas até Hiroshima


Existe uma curiosa circunstância na actividade bélica que se manteve imutável por mais de cinco séculos – na realidade até Oppenheimer reunir um grupo de cientistas em Los Álamos e aí formar o centro de pesquisa nuclear que iria criar a primeira bomba atómica. Citando o livro sagrado dos Hindus, o Bhagavad-Gita, Oppenheimer mais tarde terá dito, e eu tenho de repetir: “Now I am become Death, the destroyer of worlds.” Na realidade, apenas aqui esta verdade imutável sobre a guerra cessou de ser e sendo que essa era que a guerra apenas pode ser ganha, ou, no mínimo, combatida de forma a tornar a tornar a derrota quase impossível de três maneiras diferentes.


A primeira é através de um estado plenamente militarizado. Isto significa, é claro, o recrutamento militar obrigatório – mas não só. O recrutamento militar obrigatório foi pela primeira vez criado na Suécia no princípio do século XVII mas sem grande efeito como a Guerra com a Prússia o demonstrou quando a Paz de Nystad foi assinada.


O primeiro estado inteiramente militarizado foi, precisamente, o pequeno estado da Prússia como a Guerra dos Sete anos veio demonstrar de forma indubitável. Entre 1756 e 1763, A Prússia liderada por Frederico II, (que no curso dessa guerra lograria atingir ao epiteto de o Grande) e assistida em terra apenas pelo Eleitorado de Hanôver defrontou e, de uma forma ou de outra derrotou, pois manteve o satus quo ante bellum, a Rússia, França, Áustria e seus aliados do Sacro-Império Romano, Suécia e Espanha. “Not a country that has an army but an army that has a country, in which, as it were, it just billeted” – nas palavras do ajudante de campo do seu filho, Von Berenhorst. Na realidade, a Prussía era um estado com pouco mais de dois milhões de habitantes e com um exército de mais de duzentos mil homens. O rácio de homens para militares era de ¼, o que, se excluirmos crianças, idosas, doentes e claro, estropiados de guerra, torna a afirmação de Von Berenhorst numa realidade. Mas não era apenas esta organização no processo de recrutamento que fazia a Prussia prevalecer, ou pelo menos, não se quebrantar. Existia uma verdadeira cultura de militarização da sociedade. A nobreza apenas podia almejar privilégios ou terras caso participassem na guerra. E tal como Esparta, mais de 2000 anos antes, era nesse sentido que eram educados desde crianças. Frederico era, no seu próprio direito, um homem notável e muito à frente do seu tempo. Correspondia-se com Voltaire – com o qual partilhava uma certa tendência anti-eclesiástica – e proclamava-se com o primeiro servidor da nação. É extraordinário verificar como, em menos de um século o discurso absolutista dos Bourbons se havia tornado obsoleto: o estado era agora a nação, e o rei, um seu servo.

A segunda é através do poder económico; e aqui, nada terá sido mais determinante para França e Reino Unido durante a segunda guerra dos 100 anos do que a sua capacidade de financiar uma guerra prolongada. Aliás, quase que se pode argumentar que a própria Revolução Francesa foi resultado dessa tentativa desesperada de Louis XVI em competir com o príncipe eleitor da casa de Hanôver, o rei George III, pelo domínio terrestre na Europa, colonial na América e marítimo, por todo o mundo. Três anos após o fim da Guerra da Independência dos Estados Unidos, cerca de 50% das receitas francesas eram esgotadas pelo serviço de dívida. O país estava, por todas as definições possíveis na bancarrota. As vitórias de Lafayete, embora colocassem um fim às pretensões britânicas nos Estados Unidos não trouxeram nenhuma vantagem política com a excepção da reconquista de Granada e das ilhas Dominicanas pois o Canada continuou quase inteiramente na posse dos Britânicos. Os Britânicos pelo contrário encontravam-se muito aquém do seu limite, como as guerras napoleónicas o iriam comprovar, pois por essa mesma altura acumulavam um surplus de mais de 1 milhão de Libras. Como era possível tal discrepância?

A razão prende-se na forma como o sistema político organizou o seu sistema fiscal, e claro está, na mais importante instituição do Império Britânico: o Banco de Inglaterra. A colecta de impostos no Reino Unido era realizada por uma burocracia profissionalizada e provinha sobretudo de impostos indirectos (impostos directos representavam apenas 18% da colecta) sobre o consumo cobrados nos portos e às portas de fábricas – portanto invisíveis aos contribuintes pois encontravam-se incorporados no preço. Quando estas receitas não eram suficientes, o Banco de Inglaterra emitia Consolas (títulos de obrigação perpétua) que cobriam o deficit.

“The stability of the bank of England is equal to that of the Britsh government. It acts, not only as an ordinary bank, but as a Great engine of the state.” – na palavras de Adam Smith. Ora porquê que Necker (ministro Francês das Finanças da altura) não fazia o mesmo? Pela simples razão que não existia, nem existiria até Napoleão o criar 1808, um banco de França. Mas tal não teria sido suficiente. Os impostos em França eram cobrados, não por uma burocracia profissionalizada, mas por entidades privadas que realizam a colecta em troca de uma comissão. E eram sobretudos impostos directos (sobre a terra) cobrados, não aos nobres, mas directamente aos camponeses. O imposto indirecto mais significativo (a gabelle sobre o sal) não era uniforme. Variava de 5% a 25%, tornando o contrabando de sal entre regiões com taxas de imposto diferentes num negócio recorrente. Um pormenor significativo da aversão dos Franceses a um sistema fiscal justo, transparente e burocrático é a entrada da palavra Budget na Enciclopédie Méthodique: “Termo parlamentar Inglês”. Não existia orçamento, nem, claro está , parlamento, antes um Compte Rendu au Roi o que tornava impossível perceber o verdadeiro estado das finanças públicas até a situação se ter tornado insustentável – algo que nos é familiar a nós, Portugueses. Por essa altura, uma das formas de rendimento mais importantes para o estado era a venialidade. A venialidade assentava num pagamento anual para obter uma isenção, privilégio ou até um título de nobreza. Por altura da Revolução francesa, existiam mais de 70 mil portadores de venialidades em França, o que era um negócio ruinoso para o estado na medida em que as isenções em muito ultrapassavam os pagamentos. Mas era também uma questão de risco moral. “Noble status can only be gained by the sword, by bravery and outstanding service.” Assim terá respondido Frederico quando abordado no sentido de vender títulos de nobreza na recém conquistada Silésia para financiar a continuação da guerra. Assim ficava marcada a diferença de espírito entre França e Prússia.

Os exemplos futuros destas duas formas de ganhar uma guerra ficariam expressas na última grande guerra de todas: WW2. Aqui, e de novo, embora em lados opostos, o terceiro Reich assentou a sua força na imposição de um estado plenamente militarizado. Por essa altura, não se tratava contudo de uma questão de impor o serviço militar obrigatório: tal era já comum na Europa; mas sim de inculcar uma cultura bélica permanente desde a infância, um fanatismo metódico, uma lealdade sem limites.

Do outro lado, a mesma força económica assente, não só no Banco de Inglaterra, mas nos Estado Unidos. Durante a Grande Guerra (WWI), o Reino Unido quase perdera a guerra por uma combinação de incompetência militar e, sobretudo, inabilidade económica ao tentar financiar a guerra, não com dívida, mas com moeda. Na WW2 não cometeu o mesmo erro, não obstante tenha tido um acesso superior aos mercados americanos – agora plenamente do lado britânico após Pearl Harbour.

Existe ainda uma terceira forma de ganhar uma guerra, ou de, pelo menos, não a perder, e essa é a minha preferida pois é a mais evidente e a responsável pelos episódios mais dramáticos e sangrentos das Guerras Europeias desde o século XVIII e essa é possuir um território que se estenda por mais de 10 mil Km com temperaturas no Inverno que atinjam -50 graus. Essa terceira forma é muito simplesmente de ser um país chamado Rússia, essa nação nunca derrotada no seu solo que encontra nas dificuldades da sobrevivência do seu povo, a impossibilidade de vitória dos seus invasores. Aqui caíram Napoleão e Hitler de forma estrondosa. Napoleão perdeu 480 mil homens da sua Grande Armée, e Hitler bastante mais entre Stalingrad, Kursk e outras grandes batalhas contra o exercito vermelho.

Friday, September 16, 2011

Esta Fome, Esta Paz

Esta paz inquieta, interna, ilusória. Aquele sítio. Aquela fome.
Debruço-me sobre esta forma de beleza estéril
Que cospe beijos como ventosas,
E que verte esta fome inquieta, densa, aguçada,
Esta vontade apoiada
Entre o nada e o que resta quando as palavras faltam
E o sorriso perdura, milimétrico, ao apagar-se.


A pele que se esgueira à expressão e os vincos realizando-se
Em incandescência furibunda,
aquela certeza, aquele descanso,
Aquela forma de tudo percepcionar para além da existência.

Esta paz: o roncar da onda que se encolhe antes de arrebentar.
Esta luz simétrica entre a dor e o prazer,
Aí rezar, ou aí exercer a humildade de forma fiel,
Experimentando os vincos do linho bruto desfazendo-se em carne fria,
fome pavorosa, crente, torpedeada.

Este ponto único, solene, vestido de mãos enormes e dedos luminosos,
Embalando o tempo,
Embalando a eternidade que desova nas rugas dos lábios
Rompendo-se em crostas salivantes,
Rompendo-se em migalhas de sangue fundente que engargalam a vontade,
E ANIQUILAM, ARRUINAM, ESTERILIZAM
qualquer forma de generosidade sem pretensão.

Oh Loyolas sarnentos, oh Deuses cúmplices,
Deixai-me atingir o ser
E aí permanecer
Sozinho com a minha fome!

Thursday, September 01, 2011

Acordar em Combray

Acordou meio obstruído na respiração, e por isso respirou fundo. Virou-se de um lado para o outro, aconchegou-se mais um pouco, virou a almofada e fechou os olhos com força. Fechar os olhos e imaginar que tudo está bem, foi o que fez. Imaginou a mesa posta para o pequeno-almoço, e logo sentiu o cheiro das torradas quentes e do café acabado de fazer. Imaginou o carro reluzente parado à entrada com o motorista de camisa ao xadrez e boina bem funda na cabeça; imaginou-o com um pequeno fio de bigode à anos trinta e olhar compenetrado. Em seu redor, imaginou um relvado bem arranjado e acabado de regar, emanando o odor da relva fresca. Um relvado amplo, delimitado por canteiros com jasmins e camélias e por pinheiros bravos enroscados por trepadeiras de verde musgo. Viu a casa de fora: Viu-a grande, branca e antiga como num conto da Sophia. Acrescentou uma cerejeira em flor, caruma estaladiça enroscando-se como cotão na brisa morna, e o zumbir ciclotrónico dos grilos; acrescentou apenas o refluir rochoso de um riacho anónimo galgando o seu curso. Imaginou tudo isso e virou de novo a almofada, esticou-se e fixou-se na janela entreaberta respingada pela cacimba exterior. Assim ficou entretido a contar o tempo que uma gota de chuva sobrevivia na superfície de vidro: doze segundos parecia ser a esperança máxima de vida de um elemento meio vítreo, meio líquido. Começou a sentir a presença de vida dentro dele, o coaxar dormente dos pulmões, o baloiçar intranquilo do coração. Virou-se para o outro lado; não gostava de sentir o bater do seu próprio coração. Não conseguia contudo abandonar o cenário sinestésico que criara, uma espécie de Combray sem Proust, um país das maravilhas sem Alice mas, de imediato, imaginou Proust, Alice, e Sophia a tomarem chá nessa sua casa de campo imaginária e a discutir trivialidades com a rainha de copas a servir biscoitos de limão. Foi dessa forma que dele emergiu um primeiro sorriso, um esquisso de sorrir, um breve alongar dos músculos faciais que de imediato o deixou exausto. Era ainda cedo, perto das sete, mas já se começavam a ouvir passos ténues fora do quarto. Alguém entrou e ele cumprimentou: ah, enfermeira Luísa, hoje veio de branco! Fica-lhe muito bem… A enfermeira sorriu, de forma algo forçada, e, sem nada dizer, começou a passear-se de um lado para o outro no quarto, preparando o banho. Consegue pôr-se direito? – Disse num tom gélido. A sua Combray, que ainda perdurava no seu espírito, desapareceu de imediato, assim como as migalhas do sorrir que obtivera antes; com os braços elevou o corpo para cima; ficou assim sentado, na sua imobilidade permanente, e fechou de novo os olhos. Mas desta vez, apenas sentia o cheiro a desinfectante. Assim começara mais um dia.

Tuesday, July 19, 2011

memória-acto

Lisboa com a fundura do seu cinzento estaladiço que me recheia a imaginação de memórias perdidas de tempos arrancados, tempos inefáveis presentes em sombras e olhares e gestos e sabores. Um espaço inteiramente dedicado à chuva deslizando pelas janelas e torneando os parapeitos; ao cheiro fecundo da calçada húmida; e às faces juvenis desmaiadas, cheias de imperfeições e singularidades, vozes em grupo ecoando pelas ruas em perfeitas correrias. Essa é Lisboa em tons de memória inquieta, e eu lá estou, eu meio peão, meio encenador, relembrando-me enquanto vivo os sons e a matéria densa – como se a vida lavrasse o ar com uma urgência imparável – que em cada movimento, e em cada momento, se encontra um pedaço de eternidade com a sua perfeição irrepetível de vida vivida. E logo que vivido, fecunda uma memória-acto, um perdão pelo tempo se ter escoado, e eu não te cerrado as mãos para o acolher, deslizante, subtil, único.

Wednesday, January 19, 2011

Entre nós

Entre nós e os mortos um silêncio entre vivos vigora
Agora que já nada resta para dizer
A fúria mansa e diária de se existir e nada se fazer
Nada se existir ao fazer
E interrogam-se entre nós aqueles que dizem
Que os outros nada fazem
E ainda assim apenas o fazem para nada
Ter de fazer
Entre nós e os outros uma lava fétida percorre
Os dias e estamos todos de mão estendida
A pedinchar ou mais tempo ou algum sentido
Mas nunca ambos
Pois com o tempo não bastaria perceber-lhe o sentido
Seria forçoso exibi-lo e isso cansa
Até porque o ter o sentido em nada revoga
Esta mundana experiência de não-morte
Somos gatafunhos de estéril vida individual
Ao abrigo de uma qualquer futura dialéctica
E impõe-se a questão
Entre mim e os mortos e os outros
Que podemos fazer
Somos matéria cósmica comum indistinta numa concha
De nada
Entre nós e os mortos a surpresa da absolvição
O fascínio pela libertação de endorfinas
E para além do princípio do prazer
O feitiço paralisante da reprodução em massa e do contínuo exercício do poder
Entre nós e tudo,
Somos a mão que se estende e perfura a noite galopante
A mão que se ergue e dobra a gravidade
Até as unhas se encavalitarem mas sem dor
Apenas uma picada e depois um alívio contínuo.
Mas somos apenas isso
Uma mão estendida

Friday, January 14, 2011

L'envers - Chap. 1


Os passos apressados na garre du Nord deambulando pelas dezenas de linhas, subindo os degraus escorregadiços, e desviando-me sempre da multidão inalterável, compacta. Alguns são transeuntes como eu, mas outros são presenças residentes. As multidões encaixando-se por entre o fumo locomovido a suspiros de espera e entre elas a multidão sifilítica comunicando a l’envers (N.T.: calão francês que consiste em falar ao contrário abolindo algumas letras; e.g. femme diz-se mef, embora se pronuncie meuf) como se o universo para eles se realizasse numa oralidade invertida que apenas acentua a devastação que a ignorância cria na cabeça dos mais fracos; aquele mecanismo filosoficamente espúrio que é o de designar activamente alguém, uma pessoa ou um grupo delas, por “outros”; os outros imateriais que se definem por conversar numa língua que é ensinada na escola. Chamar-lhe-emos aculturação como a negação da tentativa, do esforço em perceber a cultura em nosso redor, o quê que foi feito e sobretudo, pensado antes de nós, antes de mim. E sobretudo a incapacidade em criar um identidade própria sem ser por oposição a algo já existente.


Lembro-me da poesia morna que sentia a escorrer-se pelos dedos frios ao me aperceber que estava longe de casa e que ninguém me poderia reconhecer e que tudo era inconsequente. E depois pensava enquanto procurava a saída da estação, qual consequência? Inconsequente por sem seguimento (cronológico, geográfico) ou sem sensação de julgamento. Um desvario de liberdade engorssava-me os passos.

Fazia o Boulevard Magenta, preenchia o passeio de betão podre até ao quais de Crecy e depois estava quase lá. Lá onde ela morava. Ela era ela, tão abstemicamente francesa, francesa sem rodeios e contudo tão envergonhada por esse facto. A vergonha.


La honte n'a pas pour fondement une faute que nous aurions commise, mais l'humiliation que nous éprouvons à être ce que nous sommes sans l'avoir choisi, et la sensation insupportable que cette humiliation est visible de partout.


A vergonha não provém de uma falha que tenhamos cometido; advém de algo intrínseco a nós, que nos define, que nos torna reféns de nós mesmos.


Não fiz nada de mal. Mas sou francesa. E era-lo no corpo com aquela forma de coxas esguias e firmes que se acotovelavam numa cintura mais saudável que a estreiza das coxas faria anunciar. Falava-lhe atrapalhadamente das minhas impressões pelo caminho para disfarçar a minha incapacidade em fazer conversa. Mas ela respondia tremendamente preocupada com CPE (N.T.: contract premier emploi). Falava das gerações futuras e das provações que teriam de passar; relatava discussões com outros amigos; finalmente baixava o olhar como se denunciasse a sua impotência.


É perturbante para mim que nasci cheio desta leveza que é ser português, sentir que os outros poderão gostar mais do seu país que eu do meu. É um ultraje que não pretendo admitir. Talvez gostar seja uma hipérbole, mas preocupar-se de uma forma construtiva ou talvez apenas participativa. Mesmo a construção não é uma finalidade em si; depende da uso dado à construção; não é algo que se esgota em si. Bebíamos Rosé de Bordéus que é bem mais bonito que Bordeaux que parece uma cor meio indefinida, uma coisa em forma de assim como dizia o O’Neill. Bordeaux é a cor do vinho dizia-me ela. E vertia um sorriso breve.


Às vezes íamos dar grandes voltas pela cidade. Mas eu tenho um pouco de pavor a cidades demasiado grandes. Mesmo sendo Paris, a grandeza tem os seus inconvenientes. Mas caminhávamos. Não entravamos em lojas, era um passeio contínuo. Íamos ao Pompidou. Achava tão curioso, e vivencial ir a um museu à noite. Uma densa cumplicidade germinava entre as pessoas que visitam museus à noite; em tudo semelhante aos homens que se reconhecem em bares de alterne ou em mesas de jogo. Estás aqui para o mesmo que eu. E naquele caso o mesmo era diferente.

Ela aquecia o pequeno apartamento, bebíamos Rosé, fumávamos, e riamos e era tudo tão particularmente infinito. Uma coisa que se esgotava plenamente em si. Aquilo esgotava-se em si como a amizade genuína com sexo à mistura se esgota em si, impedida de ser algo de mais. Tem de se esgotar em si, dali não pode seguir para mais lado algum, caso contrário deixa de ser essa coisa a prazo e com elevado grau de inconsequência; transforma-se no tema mais abordado da literatura, e pior descrito em português que é o amor. E então estava assim estendido, encostado a ela que a seguir ao sexo se aninhava contra mim misericordiosamente e com tanto calor que eu não tinha outro remédio se não acender um cigarro, e tentar pensar por um instante e dizer-me a mim mesmo, menino Teodoro Ribeiro que era como a minha Avó Cristina me chamava quando estava zangada comigo, estás a gostar dela? Estás a entrar nessa gruta sombria, guiado por pirilampos, avistando gravuras POP tipo Wharol, com lábios cheios de um rubor febril que dizem amor em toda a sua intangível pirosice que o termos adquire neste pegajoso e adorado português. Estás magro, dizia-me. Eu baixava o olhar, separava o fumo da respiração entretida dela e assentia: Ouait, ça ne te plais pas? – que era a manifestação agressiva da minha auto-defesa contra a realidade do enamoramento. Algo que evito destemidamente; a própria noção de admitir perder o controlo sobre mim é algo não muito bem aceite pelas entidades que me compõe. Acho que a expressão feminina para isso é entregar-se e a masculina é deixar ir-se, um dos muitos gorduchos eufemismos du portuguais.

Evitava lá ficar, mas era demasiado estúpido voltar para minha casa. Ao amanhecer, ela exibia apenas um degrau a mais de tristeza quando eu partia naquele meu ar desinteressado e piolhento de quem não tem nada a ver com aquela situação toda. Ficava triste; como eu. Ela mostrava um pouco mais de tristeza do que devia porque fazia-me sentir culpado por a obrigar a partilhar comigo este meu lado de duplicidade face ao objecto. Ora um lado duplo é um plano que dá para os dois sentidos em simultâneo. É um bissector director. São ridículas as explicações que tento criar para explicar a minha insegurança infantil face ao acto de dar e partilhar que resume por inteiro o amor.

Mas sabendo isso, sabia também que me ia sentir exactamente da mesma forma ao voltar a ela. Ia ser igual. O mesmo tremor a subir os degraus, a mesma ânsia apaixonada, a mesma estranheza face ao mundo. À despedida dizia-lhe love you honey e carregava muito no honey para parecer Texano. Honeey! Sabia que no dia que ela não sorrisse estaríamos acabados. E assim, em cada regresso, lembrava-me outra vez da cumplicidade com os franceses que falam à l’envers por eu mesmo viver o meu a l’envers pessoal, a minha recusa consciente em apaixonar-me por esta mulher que em mim existia e que era, ainda por cima, real, tangível, desarmante, um meio continuo de propagação de coisas não terrenas. Preferia viver dentro de mim, com linguas imaginarias. Eu sabia disso; o amor surge de forma mais genuína quando desemparelhado da vivência diária. Não é um apoio para o quotidiano; é todo ele um quotidiano alternativo.